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Morte e vida Severina: a triste sina do Policial. Artigo por Odirlei Araújo

Morte e vida Severina: a triste sina do Policial. Artigo por Odirlei Araújo

Severino é uma metáfora para nordestino, que na maioria das vezes sai do sertão acreditando que no Recife, ou outras cidades nas quais a seca é mais branda, a vida pode ser melhor, mas em todo percurso ele vai percebendo que a vida é Severina, independe do lugar, ou das condições climáticas. O retirante Severino deixa o sertão pernambucano em busca do litoral, na esperança de uma vida melhor. Entre as passagens, ele se apresenta ao leitor e diz a que vai, encontra dois homens (irmãos das almas) que carregam um defunto numa rede. Severino conversa com ambos e acontece uma denúncia contra os poderosos, mandantes de crimes e sua impunidade.

 

Com base no conto de João Cabral de Melo Neto, faço aqui minhas alusões paralelas entre a situação narrada pelo escritor e a realidade vivida pelos Policiais de todo o Brasil, em especial os do Amazonas.

 

O ocorrido no ultimo dia 17 com o sargento da Polícia Militar, Afonso Camacho Dias, 44 anos, que foi assassinado com quatro tiros por dois homens não identificados, durante um assalto, o famoso crime chamado ‘saidinha de banco’ no estacionamento da agência Bradesco, localizada na Avenida Leopoldo Peres, bairro Educandos, Zona Sul de Manaus, reflete o estado de impotência a que nossa sociedade está exposta. Como dizem muitos: “se não respeitam nem policia, quem dirá um cidadão comum”.

 

Somente nos últimos doze meses foram vitimados por ações de bandidos, 13 policiais entre civis e militares. O sonho de um bom emprego, com estabilidade e salários compatíveis com a função, torna-se em pouco tempo decepção, aborrecimentos e lutas diárias pela sobrevivência, porque a partir do momento em que assumimos a função de servidores da segurança púbica, somos obrigados por força moral e de consciência a desempenhar nossas funções da melhor forma possível, mesmo em condições precárias, a profissão Severina.

 

Tenho dito e repetido em meus artigos semanais e também comentado nas matérias publicadas na pagina do SINPOL-AM, que a falta de valorização dos profissionais das policias nos expõe diariamente a riscos além do esperado. Que salários defasados, equipamentos sucateados, instalações prediais em ruínas, armas que muitas vezes nos traem, veículos sem manutenção ou sucateados, além do tratamento muitas vezes desumano a que somos submetidos, como por exemplo, o caso da corregedoria que só mudou sua conduta porque lutamos junto a COBRAPOL para provocar o Supremo Tribunal Federal (STF), para que as injustiças e abusos fossem contidos.

 

Não sou a favor da prática do “BICO” ou desvio de função em serviços extras, mas volto a dizer que é preciso que o Governo do Estado invista verdadeiramente na segurança pública. Não adianta apresentar alguns veículos novos e dizer que dessa forma o problema da segurança está resolvido. Propaganda só resolve o interesse das agências de publicidade e empresas de comunicação. Enquanto isso, nós, policiais civis e militares nos vemos abandonados, porém cobrados em nossos serviços, porque é necessário mostrar nos dados oficias do governo que o fator segurança pública vai muito bem. Vai sim, mas só aparece assim porque somos Severinos, porque somos obstinados, porque honramos nossos nomes e nossas funções, porque amamos nossa profissão e apesar dos percalços, fazemos de tudo para fazer bem feito o nosso trabalho.

 

Falta reconhecimento, falta seriedade do poder público para conosco, e ainda assim acreditamos que encontraremos vida digna. Se alguns colegas enveredam pelo caminho do complemento de renda, não concordamos, mas também não apontamos o dedo para condená-los, uma vez que muitos têm mais gastos que ganhos e isso os leva ao desespero e ao serviço extra-funcional, o que muitas vezes lhes traz prejuízos ao invés do pensado lucro, quais foram os casos dos policiais militares vitimas da maldita saidinha de banco no ano passado e agora.

 

Causa-nos indignação ver o pessoal da Pericia com pires na mão, apelando à imprensa, à sociedade que os ajude a continuar com seu trabalho, que os ajude a conseguir equipamentos, que os ajude a continuar existindo. Não é isso que se espera para uma força de segurança pública que em seis meses tirou de circulação quase quatro toneladas de entorpecentes, que elucidou vários casos de homicídios, que diariamente se expõe em uma guerra urbana, onde muitas vezes quase temos que atirar pedras por falta de armamento e munição.

 

Por fim, nossa vida é severa, é Severina, mas somos severinos e perseverantes, pois temos respeito e honramos nosso compromisso com a sociedade que nos mantêm. Somos e continuaremos sendo, apesar da falta de atenção, de valorização e de investimentos em segurança pública; guardiões da sociedade, porque somos parte dela e nela temos nossas famílias e amigos. Assim vamos lutando, caminhando e acreditando que a vida pode melhorar apesar da MORTE E VIDA SEVERINA.

 

 

 

 

 

 

 

“O prato mais caro do melhor banquete é o que se come cabeça de gente que pensa” (Raul Seixas)

 

 

 

 

O autor é Bacharel em Ciências Econômicas, Escrivão de Policia Civil, Presidente da AEPOL e Vice-Presidente do SINPOL-AM.            

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