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Que agonia o canto do trabalhador. Artigo por Odirlei Araújo

Que agonia o canto do trabalhador. Artigo por Odirlei Araújo

O trabalho é força que pode ser desencadeada até por uma máquina; ainda que o capitalismo privilegie o trabalho, hoje é dia de pensar no trabalhador.


A História do Dia do Trabalhador remonta o ano de 1886 na industrializada cidade de Chicago (Estados Unidos).


No dia 1º de maio deste ano, milhares de trabalhadores foram às ruas reivindicar melhores condições de trabalho, entre elas, a redução da jornada de trabalho de treze para oito horas diárias. Neste mesmo dia ocorreu nos Estados Unidos uma grande greve geral dos trabalhadores. Dois dias após os acontecimentos, um conflito envolvendo policiais e trabalhadores provocou a morte de alguns manifestantes. 


Para homenagear aqueles que morreram nos conflitos, a Segunda Internacional Socialista, ocorrida na capital francesa em 20 de junho de 1889, criou o Dia Mundial do Trabalhador, que seria comemorado em 1º de maio de cada ano.


Portanto, a data de hoje é um momento de reflexão e conscientização, por algumas razões; no capitalismo mundializado de hoje, os sindicatos devem interferir e propor políticas de Estado aos trabalhadores, por exemplo, ao invés de ficarem reivindicando plano de saúde particular à suas categorias, deveriam exigir saúde, pública e de qualidade, assim como para a educação, para o transporte etc., ou seja, deixar a pauta economicista e avançar nas pautas sociais.


A Constituição Federal de 1988 dispõe, no art. 1°, IV, que, dentre outros, a República Federativa do Brasil tem como fundamentos “os valores sociais do trabalho” e, no caput do art. 170, dispõe que a ordem econômica é “fundada na valorização do trabalho humano”. Deve-se dar atenção tanto à dimensão humana do trabalho, que está relacionada com a dignidade e a própria subsistência da pessoa, enquanto ser dotado de livre arbítrio e dignidade, quanto à dimensão patrimonial do trabalho, que se revela na relação de emprego em si, cuja finalidade é a produção e circulação de riquezas mediante o pagamento de uma retribuição pecuniária.


Enfim, o trabalho a que se refere a Constituição não é apenas aquele fruto da relação de emprego, mas toda a forma de trabalho, gerador de riqueza tanto para o que presta o trabalho como para a sociedade em geral, assim como o trabalho como tentativa de não se promover o não-trabalho. Já o aprofundamento da ideia de valorização do trabalho humano como fundamento do Estado Democrático deve levar à certeza de que tal valorização envolve um amadurecimento histórico do princípio, na busca pela sua concretização a partir dos ensinamentos decorrentes das experiências passadas.


Com esse olhar para o passado, almejando soluções para o presente, pode-se concluir que a busca pelo atual significado desse princípio deve envolver uma análise tanto do passado quanto de uma pesquisa do atual contexto mundial de globalização.


Assim, considerando a atual realidade vivida pelos trabalhadores formais e informais, ressalvem-se os que estão desempregados e que permanecem sendo forças de trabalho e geração de renda, que diante das crises sucessivas, sejam de ordem econômica, politica ou social; ainda persistem na luta por sua sobrevivência e da própria economia local e nacional, uma vez que em tudo o que se consome ou se negocia em valores financeiros geram impostos que por consequência movimentam a economia, ainda, que os menos favorecidos e até os miseráveis geram renda.


É momento para refletir, mesmo que se trate de uma data específica, mas nos desperta a atenção os fatos e assuntos que muitas vezes negligenciamos. Ao invés de discutir o futebol nacional ou o programa de TV que promove o teatro bizarro e desprovido qualquer coisa que se possa chamar de interessante ou inteligível, deveríamos e devemos pautar nossos temas de conversa em assuntos sobre a economia e o trabalho, sobre a educação e o desenvolvimento dos nossos municípios Estados e País.


Também não podemos deixar de comentar sobre a desvalorização que os trabalhadores no geral e em particular os da segurança pública que são sem questionamento, parte fundamental para a ordem social, vêm sofrendo achatamento de seus salários, de suas condições de vida e trabalho. No Amazonas há muito estamos lutando por melhorias nas condições de trabalho. Vivemos em prédios que em muitos casos ameaçam até desabar sobre nós. Viaturas que podem nos deixar no meio do caminho e na mira de criminosos a quem combatemos e armamento sucateado e muitos sem condições de uso. 


Perdemos valorosos companheiros por falha no armamento, outros foram ameaçados e quase feridos ou mortos por presos perigosos em delegacias que ainda servem de carceragem, principalmente no interior do Amazonas. Data-base não se paga há dois anos, o ticket de alimentação há seis meses atrasado, delegacias utilizando a velha radiofonia por falta de telefones que ora estão cortados, computadores na iminência de serem substituídos pelas velhas máquinas Olivetti e tantos outros descasos com nosso trabalho e nossos trabalhadores, enquanto se investem milhões em meio a uma terrível crise para o espetáculo desnecessário das “Olimpiádas”.


Olhando outros Estados, o Rio de Janeiro parcelando salários e suspendendo o pagamento de aposentados e pensionistas, o Estado de Alagoas onde o Governador covardemente se esconde dos trabalhadores e recorre a Justiça que decreta ilegal qualquer manifestação reivindicatória. Um Estado que teve duas mil armas periciadas por um diretor do SINPOL-AM e apontadas com defeituosas, o Governador trata a segurança pública com algo sem importância. Pior ainda é o caso do Estado de Goiás onde o Governador comete o mais absurdo crime contra a segurança econômica dos trabalhadores da Policia civil, aprovando um projeto de Lei que visa reduzir o piso salarial da categoria de R$ 4.068,00 para R$ 1.500,00.


São tantos os absurdos cometidos contra o trabalhador pelos detentores de mandato parlamentar, legislativo e judiciário que vem cada vez mais forte ao peito a angustia e a disposição de gritar e fazer ecoar “PRECISAMOS RENOVAR NOSSOS QUADROS POLITICOS!” Sim, precisamos urgentemente renovar nossos quadros políticos. Chega das velhas raposas se locupletando da coisa pública, chega dos lobos se fingindo de pastores e devorando o rebanho.


Queremos novas apostas, acreditar que pessoas de bem e de boa formação profissional, intelectual, ética e moral podem bem nos representar e assim representar verdadeiramente nossa gente e a classe trabalhadora para que enfim nossa sociedade possa acreditar em dias melhores e de fato alcançarmos a tão sonhada justiça social.


Entendemos por fim, que não é reprimindo desempregados que apelam ao trabalho informal como ambulantes, que não é cortando benefícios sociais e trabalhistas, que não é fechando escolas e hospitais e construindo estádios ou desenterrando pisos antigos que vamos ver uma sociedade atendida em suas necessidades. Queremos e veremos, assim creio, em breve um quadro de representantes legislativos e executivos renovados, comprometidos com a verdade e que tenha olhos para a janela do horizonte social e não para o espelho de Narciso com há muito vimos agir nossos governantes e legisladores.


Por fim, mesmo que não se tenha muito a comemorar, parabenizo a cada um que busca com dignidade sua sobrevivência, o pão de sua família e o bem de nossa sociedade. Acreditemos enfim, que enquanto houver vida haverá a esperança de dias melhores e enquanto houver homens de bem, haverá a esperança de dignos e honrados representantes que nos darão razões para nos reconhecermos trabalhadores e comemorar todos os dias o nosso dia, o DIA DO TRABALHADOR.



“Esse canto que devia ser um canto de alegria, soa apenas como um soluçar de dor” (Clara Nunes). 




O autor é Economista, Escrivão de Policia Civil e Vice-Presidente do SINPOL-AM

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